L'INCS #6










Por Lisley Braun Toniolo



Eis O Boletim L’Incs #6, a última edição prévia à XXI Jornada: “O inconsciente e a diferença sexual: O que há de novo?”



Lançado em meio a acontecimentos sociais sombrios nos quais imperam o retorno da censura à arte e à nudez, o L’incs #6 realiza em seus excelentes textos o exercício constante e sempre renovado de olhar para seu tempo sem moralizá-lo ou temê-lo, fazendo caber o mal entendido da linguagem e o real do gozo que marcam o encontro entre os falasseres. Certos de que não há psicanálise quando a censura dita as regras, somos guiados pela curadoria de Raimundo Jorge Mourão pelas preciosas imagens de Pedro Moraleida, gentilmente cedidas por seus pais.
O nu e as cabeças voadoras


Por Sérgio de Mattos


Contemporaneidade

“O contemporâneo é o intempestivo”, anotava Barthes das considerações de Nietzsche. Somos todos devorados pela febre da história e deveríamos pelo menos dar-nos conta disso. Portanto pertencer verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com ele nem se adequa as suas exigências, assim ele é capaz, mais do que outros de perceber e apreender seu próprio tempo. Estar à altura do horizonte de sua época não é deixar-se devorar por ela.
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Entrevista para o Boletim da Jornada EBP-MG
com Fabian Fajnwaks (ECF/EOL - AMP)



L’Incs: Quais são as consequências da passagem do discurso da diferença ao discurso da diversidade?



Fajnwaks: Antes de abordar as consequências da passagem do discurso da diferença sexual ao discurso da diversidade, permita-me sinalizar que essa passagem já é um efeito do declínio da ordem simbólica na nossa civilização. Lá onde a diferença estava estabelecida pelo binário falo/castração, binário na base da ordem simbólica, temos agora, já há algumas décadas, uma civilização que se ordena diretamente pelo gozo, em curto-circuito com o semblante. No caso das teorias de gênero e queer, depois dos anos 80, sobretudo com os trabalhos de Judith Butler, os semblantes de gênero são desmascarados como uma "paródia", termo esse recorrente nos primeiros trabalhos de Butler. Assim, temos a diferença tratada simplesmente em sua estrutura de semblante.
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O “ser” autorizado

Por Bernardo Micherif Carneiro



“Autorizar-se de si mesmo”. Com esta expressão, Lacan franqueia um momento de seu ensino em que a validação da posição do sujeito estava condicionada à autoridade do pai. A lógica da sexuação foi a elaboração decisiva para reconduzir a questão. No lado feminino da sexuação não há lei, nem autoridade. Não há interdito. Tudo está permitido. Este gozo introduz cada um em uma experiência de ausência de si mesmo. Exige que ele invente um modo de se ligar ao corpo que tem, constituí-lo como corpo próprio, prender seu corpo ao “si mesmo” no qual ele se satisfaz.
 A sexuação, a eleição do próprio sexo, configura a via privilegiada para fazer existir o corpo próprio. Mas isto coloca um impasse para a legitimidade dessa escolha. Quem confirma sua validade? Lacan constatou a inexistência do Outro neste campo em que se coloca a questão do gozo do corpo sexuado. Justamente por isso, ele conclui que a sexuação poderia ser descrita pela frase: “o ser sexuado só se autoriza de si mesmo”[1] (LACAN: 1973-74, p. 52).
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As identidades, uma política, a identificação, um processo e a identidade, um sintoma

Por Marie-Hélène Brousse




O século XX viu crescer um movimento de reivindicação que tinha suas raízes no que chamarei a revolução universalista: o feminismo. O século XXI vê o desdobramento de um novo movimento de reivindicação que mobiliza outro significante, um significante novo: o gênero. O termo não é novo. Pertence à língua desde a antiguidade e designa a classificação de conjuntos relacionados por algumas similitudes. Quase universalmente presente na gramática das línguas – masculino, feminino ou neutro – associado ao nome, inscreve a marca da diferença sexuada no funcionamento das línguas chamadas naturais. Se o termo, polissêmico, é antigo, o uso que se faz atualmente do mesmo e os estudos que o promovem não os são.

Conseguiu impor-se e reorganizar o conjunto dos discursos. Este potencial obriga, com efeito, levá-lo em conta de maneiras muito diferentes e inclusive antagonistas. Está ligado a outros dois significantes de crescente importância no discurso: identidade e minoria.



Nenhuma Mulher no século 21 (No Women in the 21st Century)



Por Natalie Wülfing




O que são mulheres no século 21?

Podemos mesmo dizer “mulheres”? É possível usar este substantivo no plural ou ele está ficando sem sentido? Estas questões sempre me intrigaram. Se o conjunto “mulher” não é um conjunto fechado, mas um conjunto aberto, isso significa que há um número infinito de maneiras de ser uma mulher. Nenhuma mulher é como a outra. Neste caso deve haver apenas exemplos singulares de mulher, tal como a clínica revela. Isso coloca, então, a questão do paradigma para mim, o principal exemplo que traz algo de um molde para similaridades. Um paradigma, por definição, generaliza o que é diferente para cada um e devemos ter isso em mente quando usamos o plural “mulheres”. Eu chegarei a este ponto mais adiante.
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Sobre Conexões: uma nota 

Por Fabrício Junior Ribeiro e Margaret Couto




Em conexão com a XXI Jornada da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais, aconteceu nesta última quinta-feira, dia 05 de outubro, no Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, a apresentação de dois casos clínicos atendidos na Clínica Escola que permitiram encontrar de modo vivo o tema da jornada deste ano O Inconsciente e a Diferença Sexual: o que há de novo?


Uma criança é abusada. Efeitos de uma fantasia materna.


Por Lucia Mello


A secção clínica promovida por Suzana Barroso no Laboratório de Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica - PUC Minas trabalhou questões suscitadas por um caso atendido no ambulatório daquela instituição, enriquecido pelos comentários de Lilany Pacheco. Trata-se de criança de seis anos manifestando inquietude desde os dois, ainda na cadeirinha de bebê. A mãe, desde essa época interpreta como masturbação esse corpo que se agita. Diante dessa filha, ao mesmo tempo seu bem mais precioso e depositária de seus temores de abuso convoca a diretora da escola para em coro com a fantasia materna, filmar e exibir a criança que se masturba em sala de aula, colocando em ato o abuso temido. A mãe e a diretora da escola se imiscuem com suas fantasias antecipando, interferindo em uma operação a se fazer em três registros do lado do sujeito, construção sobre a sexualidade feminina. A menina, capturada no jogo entre enunciado e enunciação tenta com suas invenções construir corpos e vestes, criar esculturas, na tentativa de separação de um voto marcado pelo imperativo de gozo, presença dos mistérios do desejo e das equivocidades da língua. Nessa experiência, quando indagada sobre o esquecimento de seu problema, responde desafiadora à mãe: “Como posso esquecer? Você me lembra disso a toda hora”. Falar com seu corpo está no horizonte de toda interpretação e problemas do desejo como diz Miller. Essa menina o demonstra ao iniciar um esforço de exílio se indispondo com o discurso do Outro.
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