L'INCS #4 - 5.O QUE SE ESCREVE







Entrevista para o Boletim da Jornada EBP-MG
 Simone Souto (AME/EBP-AMP) 




 1)  L’Incs:  Há algo de novo na sexualidade dos seres falantes em sua articulação com o Incs?


Simone: A articulação da sexualidade com o inconsciente, a meu ver, possibilita sempre o surgimento de algo novo: a experiência psicanalítica dá testemunho disso. No que concerne à sexualidade e sua relação com o inconsciente, os seres falantes se dividem entre os que se inscrevem do lado do gozo todo fálico, os que se inscrevem do lado do gozo não-todo fálico e os que se situam fora do falo, ou seja, aqueles cuja sexualidade não tem  nenhuma relação com a norma fálica. Essas três formas de se colocar com relação ao falo possibilitam infinitas maneiras de identificação sexual. Cada época parece dar mais lugar a este ou aquele posicionamento diante do falo. A multiplicidade de identificações sexuais que encontramos hoje em dia, e o surgimento,  a cada dia, de novas nomeações, são, a meu ver, em sua maioria, invenções que se situam de forma não-toda com relação à  norma fálica ou fora dela. Nossa época é marcada por uma maior expressão e também aceitação dessa pluralidade sexual que se encontra total ou parcialmente fora da norma.  



2) L’Incs:  Qual lugar para o amor no tempo do apagamento das diferenças?


Simone: Nas formas atuais de relação, o apagamento das diferenças que, em última instância, é o apagamento da diferença sexual, pode ser situado no movimento de abolição da alteridade do parceiro. As relações, hoje em dia, tendem a deixar de fora o que faz a diferença, ou seja, o Outro sexo. Isso pode ser observado, por exemplo, no “tanto faz” relativo ao sexo do parceiro; no que concerne a essa escolha, o que escutamos muito, ultimamente, é que o sexo não faz diferença. A abolição da alteridade aparece, também, nas relações que prescindem do corpo do Outro utilizando, para isso, o recurso às imagens dos meios digitais e a outros objetos oferecidos pela tecnologia. Nesses casos, a alteridade do parceiro é substituída pelo gozo solitário, gozo autoerótico que provém da relação direta com o objeto que se encontra à mão e não depende necessariamente de uma relação com o Outro. Todas essas formas colocam, em nossa época, a meu ver, a inexistência da relação sexual à céu aberto.

Sendo assim, por um lado, podemos dizer que vivemos em uma época na qual não há lugar para o amor, pois, sem alteridade, sem furo, o amor não tem onde se alojar. Mas, por outro lado, o fato de que a inexistência da relação sexual seja mais evidente em nossos dias, com a consequente prevalência do gozo do UM sozinho, isso torna, a meu ver, a nossa época propícia ao surgimento do amor, uma vez que com Lacan, no Seminário 20, podemos dizer que o amor também pode ser uma forma de viver a não- relação sexual. Mas, qual amor? Lacan, no Seminário 20, inventa uma palavra para designar o amor que não desconhece a impossibilidade da relação sexual e que tem como condição a irredutível solidão do UM: amuro. Através do amuro, Lacan aproxima amor e gozo, pois o furo que instaura o gozo irredutível do UM e que faz barreira à existência da relação sexual é, também, ao mesmo tempo, o que pode vir a constituir-se como uma abertura para o encontro, sempre contingente. Como diz Lacan “o encontro no parceiro dos sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um, marca o traço de seu exílio, não como sujeito, mas como falante, do seu exílio da relação sexual”[1].Esse encontro contingente pressupõe, no entanto, que os parceiros sejam tomados como falasseres, isto é, como corpos afetados pela fala.Trata-se do amor que faz existir o inconsciente como falasser ou, ainda, do inconsciente como destino do amor, o que recoloca a importância da psicanálise em nosso mundo porque, ao fazer ressoar a fala, a experiência psicanalítica pode oferecer outra maneira de viver a não- relação e o autoerotismo, uma maneira que não cura a solidão do Um, mas que comporta uma abertura para o encontro com um algo a mais , com um mais ainda... 


 3) L’Incs: Se o inconsciente é a Política, como pode o psicanalista não se transformar em um político no sentido comum - aquele que gesta a comunidade para garantir a justa distribuição dos bens e de seus direitos- e não perder, quanto à sexualidade, o que conta nas curas que dirigimos: o inconsciente e o gozo.


Simone: Para responder a essa questão, eu começaria por  outra questão: o que uma experiência tão íntima e singular como a que acontece em uma análise teria a ver com algo que poderíamos chamar de política? Miller, ao retomar a frase de Lacan o “inconsciente é a política” nos leva a considerar o caráter “transindividual” do inconsciente ao defini-lo a partir da política[2]. Assim, ele promove um deslocamento que passa, primeiro, por considerar a política como o lugar do Outro até alcançar a perspectiva em que Outro é o corpo. Portanto, no limite desse deslocamento, encontramos uma coincidência entre o corpo e a política. Aqui, o corpo, como tal, não se reduz ao organismo, trata-se de um corpo cuja existência depende do que nele acontece como efeito de linguagem. Desse ponto de vista, podemos dizer que o inconsciente é a política do corpo afetado pela linguagem, ou seja, é a política do corpo falante, a política do falasser. Essa forma de definir o inconsciente tem como efeito sua amplificação à medida que possibilita, como nos diz Miller, “o transporte do inconsciente para fora da esfera solipsista”[3], ou seja, a transferência do que constitui, para cada um, o que lhe é mais íntimo, mais singular: ao falar lalíngua do corpo, é possível fazer ressoar, no coletivo, o inconsciente, o um sozinho.

Como demonstra Laurent, “essa perspectiva clínica é também altamente política”, pois “limita as pretensões do Discurso do mestre a se autorizar de um significante mestre ideal”[4], uma vez que, da perspectiva dos modos de gozo, existe uma equivalência: embora diferentes, um S1 vale tanto quanto outro. Desse ponto de vista, o que toma o primeiro plano são as experiências passíveis de dar lugar a diferentes modos de gozo e não as certezas obtidas das identificações. Todo problema é que, no campo da política, isso não se sustenta facilmente no discurso e muito menos na ação. A razão dessa dificuldade repousa no fato de que o discurso do mestre está sempre aí para nos seduzir e nos acenar com um lugar garantido no Outro, ou seja, o empuxo à identificação ao ideal, à formação de grupos e às paixões coletivas é muito forte,  reaparece a todo instante e precisa ser constantemente tratado pelo discurso analítico.



Referências

[1] Lacan, Jacques (1972-1973/1985). O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, p.198.

2 Miller, J.-A. (2002/2011) Intuições Milanesas I. Disponível em:


3-Miller, J. -A. Intuições Milanesas II. Disponível em:


4-Laurent, E. (2016) O avesso da biopolítica: uma escrita para o gozo. Rio de janeiro: Contra Capa, p. 219.




http://jornadaebpmg.blogspot.com.br/2017/08/lincs-4-6-conexoes.html




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