L'INCS #4 - 3. O QUE NÃO SE ESCREVE


Randolpho Lamonier







 HERÉTICOS ADOLESCENTES

Crônica de Laurent Dupont



Garoto ou garota, a hora da escolha



O herético é aquele que escolhe. Essa dimensão da escolha é muito presente no ensino de Lacan, desde a “insondável decisão do ser”1 até a heresia de Joyce no Seminário XXIII, passando pela “escolha forçada”, que Lacan evoca de maneira exemplar com a fórmula “A bolsa ou a vida”2 - qualquer que seja sua escolha, você perderá algo!

E se uma das questões que tocasse o sujeito no momento das metamorfoses da puberdade fosse a de se fazer herético ao discurso do Outro? E se um adolescente fosse alguém que se sentisse no dever de se posicionar em relação ao discurso dominante do grupo, ao qual ele pertence ou se opõe, no pátio da escola, na família, no grupo de amigos, na sociedade? E se a clínica, nesse momento, fosse a referência da posição, da escolha, da impossibilidade ou da hesitação em escolher, daquele cujos apegos à infância se saltam aos golpes infligidos pelas modificações de seu corpo? E se ser um adolescente fosse ser convocado a ser um herético?

Em primeiro lugar, há o que não se escolhe: a metamorfose da puberdade, disse Freud. Bela fórmula para falar sobre pelos, espinhas, voz, odores, seios, quadris, nádegas, menstruações, secreções, ereções… Enfim, de um corpo que não lhes pertence e que, sobretudo, faz o que bem entende. Nesse tempo chamado de adolescência o sujeito se sente literalmente mal em sua pele.

Adolescente! Já não é mais o tempo das teorias, das hipóteses, do despertar da curiosidade infantil… Será necessário escolher: garoto ou garota? E o provar!

Como se pensar em seu corpo e em seu sexo? Sobre o que e sobre quem se apoiar? O declínio do pai deixou o lugar dos significantes-mestres menos fixo. Os discursos sustentados pela transmissão, pela experiência, pela moral, pela religião mais ou menos perderam seu lugar. O dever proveniente dos ideais deu lugar ao “ter que se virar”. É claro que isso não vale para todos, mas é bastante observado - com múltiplas variações. Eis o tempo em que o sujeito deve encontrar uma palavra que dê sentido ao seu ser sexuado, de garota ou de garoto, “a fala, é claro, define-se aí por ser o único lugar em que o ser tem um sentido”3.

Onde encontrar essa palavra no momento do zênite do objeto, da queda dos ideais e do cientificismo triunfante? Bem, como sempre, desde o início dos tempos, na cultura, no espírito da época e no modo de experienciar o tempo - pois o tempo dos adolescentes é como um espaço que eles constroem ao seu redor ou os muros de uma prisão contra a qual eles se chocam.

Estamos na era da morte da vergonha, do triunfo da imagem, da invenção. Ser um garoto ou uma garota responde menos a corresponder o que é esperado pelo Outro da família, ou a opor-se a isso, do que a propor e se propor uma construção, uma invenção que aguente. Frequentemente essa invenção passa por um modo de lidar com esse corpo estranho que seu corpo se tornou. Há uma nova maneira de fazer uma escolha, um novo tipo de “palavra”, roupas, penteados, tatuagens, joias, piercings e invenções na linguagem - tentativas de dizer sobre o que se é. Isso não é nem pior nem melhor do que se fazer ser através do nome do pai.

É, então, na cultura da experienciação do tempo que o sujeito produz sua heresia. “O que chamamos de cultura não é nada além da reserva dos escabelos na qual se vai buscar com o que esticar o colarinho e bancar o glorioso”4.

Desse modo, depois de ter elaborado suas teorias sexuais infantis, depois de ter questionado, ou nem tanto, os mistérios de sua vinda ao mundo, da sexualidade, no momento de pôr seu ser à prova, ele tomará significantes da reserva cultural de seu tempo, de imagens ao seu redor, de encontros, mas também da internet, das redes sociais, dos jogos, das séries, dos filmes… para se fazer belo, tanto aos seus próprios olhos quanto ao olhar sempre suposto ao outro, espelho de si mesmo.

A adolescência poderia ser o tempo do escabelo, ou seja, como destaca Jacques-Alain Miller, isso “sobre o qual o falasser se ergue, sobe para se fazer belo. [...] Isso traduz de maneira imagética a sublimação freudiana, mas em seu cruzamento com o narcisismo”5.

E se o narcisismo do estádio do espelho consistisse hoje a base de uma forma de sublimação? E se, a cada dia, para aquele que posta uma selfie no Snapchat, Instagram ou Facebook, se repetisse o principal desafio do estádio do espelho, desafio central e dramático que me faz reconhecer-me enquanto eu no olhar do Outro? E se a eficácia do nosso corpo, a palavra que dá sentido ao nosso ser, se apoiasse no número de likes obtidos? Ou nos olhares, ou a ser popular no pátio de recreio, ou violento, ou insultante ou cruel, ou desvanecido… Em poucas palavras, isso existe, sem dúvida, há muito tempo, desde Sementes de Violência6, ou desde que Alexandre conquistou o mundo aos 16 anos. Nossos Alexandres de hoje são excelentes em conquistar o seu mundo. Que ele seja virtual, o pátio da escola ou o grupo de amigos, esse mundo é, na medida desse corpo que os faz estrangeiros em si mesmos, com frequência um pedaço da resposta ao seu ser de garoto ou garota. O psicanalista, que acolhe um adolescente fora de qualquer olhar moral, ganhará aprendendo sobre os mundos que ele conquista. Nessa oportunidade, ele poderá se posicionar como Diógenes frente à Alexandre, manejando com delicadeza uma clínica irônica7.

Esses escabelos são as mais diversas soluções para lidar com a não relação sexual. Que eles estejam ou não de acordo com a moral não é o que importa. Sua solidez, sua maleabilidade e sua utilidade, nesse tempo mutável, líquido, da adolescência, importam bem mais. Há uma vestimenta, um ser alguma coisa que se constituiu durante a infância, se encarnando na adolescência em um então é isso: ser um garoto ou uma garota, no singular de cada Um. Isto é tratado em análise, quando essa construção, esse escabelo, encontra o real que desvela sua face de semblante.

Vamos ao encontro de adolescentes do nosso tempo e de suas múltiplas maneiras de “escabelar”.



Notas

1 : Lacan, J. (1998). Formulações sobre a causalidade psíquica. In Escritos (V. Ribeiro, trad., pp. 152-196) Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.179. (Trabalho original proferido em 1946).

2 : Lacan, J. (2008). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. (M.D. Magno, trad.) Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 239. (Trabalho originalmente proferido em 1964)

3 : Lacan, J. (2003). Joyce, o Sintoma. In Outros Escritos (V. Ribeiro, trad., pp. 560-566). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.561.


5 : Miller, J.-A. (2014). O inconsciente e o corpo falante. Wapol. Disponível em: http://www.wapol.org/pt/articulos/TemplateImpresion.asp?intPublicacion=13&intEdicion=9&intIdiomaPublicacion=9&intArticulo=2742&intIdiomaArticulo=9

6 : Filme americano dirigido por Richard Brooks, lançado em 1955.

7 : Miller, J.-A. (1996). Clínica irônica. In Matemas I (S. Laia, trad., pp.190-200). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.



Texto original “Heretiques Ados” publicado em Lacan Quotidien, n. 736, 14 juillet 2017. Disponível em: http://www.lacanquotidien.fr/



Tradução: Renato Sarieddine

Revisão: Michelle Sena 





Randolpho Lamonier



             A segregação homens / mulheres e seu futuro

                                                                                                  Aurélie Pfauwadel


Como vai a mais velha segregação do mundo – a segregação homem / mulher – na modernidade?

Os diferentes “discursos”, tais que definidos por Lacan no final dos anos 60, capturam “séries de corpos” [1] que eles visam submeter. Seja pelo distanciamento ou pelo reagrupamento dos corpos, eles isolam assim os gozos. Pois o que se trata de segregar, são sempre os gozos dos corpos. A principal função do discurso do mestre é de impor as normas ao gozo e de proceder à contenção de todo gozo Outro ou anormal. Pois bem, qual gozo é o mais radicalmente Outro, e deve ser o mais urgentemente abafado, senão o gozo feminino? Daí a estrita separação dos gêneros e o sequestro dos corpos femininos nas sociedades patriarcais tradicionais. Em “Televisão”, Lacan sugere que o racismo anti-feminino expressa o paradigma do ódio frente aos outros modos de gozar: se não há relação sexual, é que o Outro é de uma outra raça, é o Outro lado do sexo, “na medida em que estamos separados dele” [2].

A mistura dos gêneros agora prevalece: “mistura” e “igualdade” são as palavras mestres da modernidade ocidental, onde as mulheres se tornaram homens como os outros. Paralelamente, a ascensão dos modos de gozo, nas suas diversidades, subverteu a dominação do Um fálico sobre o gozo, produzindo “uma crescente desordem da sexuação” [3].

Lacan apontava na época a implacável secção ou sexão operada pela lâmina da linguagem: “A linguagem é tal que para todo sujeito falante, ou bem é ele ou bem é ela” [4]. Mas a ideia do neutro, de um terceiro sexo ou de um fora do sexo reconhecido,  hoje, não é mais ficção científica. Os debates sobre os banheiros separados nos Estados Unidos, e o destino que cabe aos transexuais, são bons exemplos dessas novas circunstâncias. Os banheiros públicos cristalizam as polêmicas, pois eles constituem o último dispositivo cotidiano no qual a segregação de gênero é a norma.

Lembremos que Lacan dava precisamente o exemplo das “leis da segregação urinária” para explicitar o funcionamento da ordem significante, com a imagem bem conhecida das duas portas idênticas. A estrutura significante institui uma pura diferença entre homens e mulheres, sem inscrever seu significado respectivo, mas produzindo aí lugares distintos, perfeitamente simbolizados por estas “duas portas gêmeas” [5].

Não é surpreendente, então, que esta última segregação espacial se veja contestada na hora onde não são mais as normas simbólicas que, sob as espécies da lei, ordenam o real dos corpos, mas onde são sobretudo os corpos vivos que impõem seus gozos plurais, determinando por contragolpe as tentativas desesperadas de normalização.

Em matéria de sexuação, como em outras questões, as teses de Lacan sobre o aumento da segregação e a transformação de suas modalidades se confirmam. Se por um lado, a segregação sexual tradicional se vê nivelada pelos “progressos da civilização ocidental” [6], por outro lado essa homogeneização homem / mulher já provoca um certo número de efeitos de retorno constatáveis [7]. O movimento de gênero e estudos queer testemunham dessa tensão entre uma desagregação reivindicada dos gozos e o comunitarismo das minorias sexuais, segregações não mais simbólica, mas imaginárias e pulsionais. E pelo fato do “desatino do nosso gozo” [8], observa-se igualmente uma renovação dos movimentos virilistas que apelam tanto ao restabelecimento do Deus Falos, quanto ao desencadeamento de um ódio violentamente sexista. Nós assistimos o retorno da força de uma virilidade assustadora que não parece mais regulada pelo semblante fálico. Se o racismo tem realmente futuro, o ódio ao Outro sexo também, estejamos seguros disso...

Referências:

[1] Lacan J., O Seminário, livro XIX, …ou pior, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 2012, p. 217.

[2] Lacan J., Televisão, Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 2003, p. 533.

[3] Miller J.-A., Um real para o século XXI, Scilicet, Editora Scriptum, 2014, p. 30.

[4] Lacan J., O Seminário, livre XIX, …ou pior, op. cit., p. 38. Quanto ao hermafrodita: “Em nenhum caso o chamaremos de isso, a não ser para manifestar por esse meio algum horror do tipo sagrado. Ele não será posto no neutro”.

[5] Lacan J., « A instancia da letra no inconsciente ou a razão desde de Freud”, Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 1998, p. 503. Sob indicações de Leander Mattioli Pasqual.

[6] Cf. Lacan J., « Conférence sur la psychanalyse et la formation du psychiatre à Saint-Anne » du 10 novembre 1967, disponible sur internet.

[7] Cf. La Cause du désir n° 95, « Virilités », avril 2017. En particulier: Brousse M.-H., « La moitié de LOM », pp. 44-49.

[8] Lacan J., Televisão, Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 2003, p. 533.



Tradução: Letícia Soares
Revisão: Luciana Andrade





Jornada EBP-MG